TDAH
Vergonha, vexame e outras gafes
Levantei às 7h20. Fiquei zanzando pra lá e pra cá porque de manhã não tenho as coisas claras na minha cabeça. Todos os dias preciso de uma lista com o que tenho que fazer. Mas esqueço de fazer listas.
Lembrei que precisava comprar uma bolsa e óculos pra natação, que começaria em alguns dias. Lembrei também que um pouco de meditação antes de sair de casa é bom pra ter foco e economizar tempo. Mas esqueço de meditar.
Depois de olhar 26 vezes o celular, folhear quatro dos seis livros que estou lendo e arrumar fora de hora coisas jogadas pela casa, finalmente, consegui sair.
A primeira missão era levar o computador da minha mãe até o técnico pra colocar uma memória interna. Chegando lá, descobri que tinha comprado a memória errada. Viagem perdida. Tempo perdido. Pelo menos, pude conversar com o moço que me atendeu (de máscara*, gato). E ainda conheci a mascote da loja, uma pastora alemã linda e fofa que me cumprimentou com algumas lambidas.
Na hora de ir embora, peguei as minhas coisas de cima do balcão - e as dele também. “Ei, moça!”... me chamou o rapaz: atrapalhada e sem noção, estava saindo com as memórias que ele havia me mostrado há pouco. Pelo menos, ganhei um sorriso - quase uma risada.
Já na loja para comprar a bolsa e os óculos, estacionei meu carro bem longe da entrada; tinha achado uma vaga com sombra lá no finalzinho do estacionamento. O sol estava forte, valia a pena a lonjura.
Peguei minha mochila e fui às compras. Chegando lá, depois de uma caminhada, me deparei com objetos como cordas coloridas, bolas, bichos de pelúcia e muitos brinquedos – só que… para cães. “Que ousado”, pensei, “estão expandindo o negócio”.
Foi então que um segurança me deu bom dia e, bem atrás dele, vi um logotipo enorme escrito “Cobasi”. Só aí me lembrei de que eram duas lojas em um mesmo endereço. Devolvi o “bom dia” e saí sem graça.
Sim, agora estava entrando no lugar certo. Mais um segurança amigável me deu “bom dia”, mas fez um gesto que não combinou muito com a mensagem. Putz, entendi, esqueci de vestir a máscara*. Ha, ha, senhor segurança, ela está na minha mochila!
Só que não.
Revirei a mochila inteira. Virei de ponta-cabeça e joguei tudo no chão. Nada. Nesse instante, lembrei que a máscara poderia estar no carro. Então, tive que recolher toda aquela bagunça e voltar até lá, na puta que o pariu, no bendito final do estacionamento. E lá estava ela, pálida e esgarçada, escondida no porta-luvas. Aliviada, mas resmungando, voltei à missão.
E, o que era para ser uma compra simples foi um verdadeiro rolê. Olhei centenas de coisas, me distraí com as tantas formas e cores, peguei produtos fora dos meus planos, fui ao vestiário várias vezes provar roupas que não tinham nada a ver... experimentei um par de patins. Um par não, três: depois dos tímidos números 39 e 40, tive que colocar, contrariadíssima, o 41, que me serviu, para meu desgosto, como uma luva.
Bom, depois de quase duas horas rodando, resolvi pegar o carrinho e pagar a conta. Olhando admirada para as minhas compras, uma pitada de sanidade e um auto-sermão sobre o que eu estava prestes a fazer com o meu dinheiro invadiram minha cabeça, e acabei, desconcertada, devolvendo os vários produtos aleatórios. Principalmente os patins. Pedi desculpas à moça do caixa. Dessa vez, nada de arrependimento e culpa.
Depois, lembrei que tinha que ir ao supermercado. Peguei frutas, iogurte, legumes e uma fila bem grande no caixa. Tudo no improviso porque, claro, eu perdi a lista de compras.
Mas, em segundos, eu já tinha voltado nos patins 41, e em como eu queria que eles fossem 38, me servindo perfeitamente. Me lembrei do bullying que eu sofria do meu primo quando era criança, dizendo que eu não precisava de prancha para surfar.
Me lembrei de frases que ouvia quando criança… os clássicos “Você só não esquece a cabeça porque está grudada” e “Você vive no mundo da lua”. Os óbvios “Você larga tudo jogado” e “Você deixa tudo pra depois”. Os tristes: “Você me deixa doente” e “Tinha que ser você”. Os edificantes: “Você estraga tudo” e “Vou te colocar num colégio interno”. Por fim, a monetária “Você não sabe quanto custa”.
Desviando dos pensamentos, tentei voltar à terra, quando comecei a olhar as pessoas à minha frente, suas compras, suas roupas, suas feições com cara de poucos amigos. Observei que havia algumas com o pescoço comprido; outras quase não tinham pescoço. Parecia que as que tinham o pescoço maior eram mais bonitas, e as que praticamente não tinham nada, nem tanto. Então, comecei a me questionar sobre o meu próprio… o que estaria eu prestes a descobrir aos 55 anos?
“Próximo!” - berra o caixa.
Que susto! A fila finalmente havia andado e eu pude passar com minhas compras. Ao final, a moça do caixa, altiva, me disse:
- Pode inserir o cartão e senha, senhora?
- Sim, claro... - respondi, intimidada. Meu coração gelou. Frio na espinha. Revirando a carteira, o nervosismo tomou conta. “De novo, não! Só falta eu ter perdido o cartão mais uma vez!”
A moça já estava me olhando com desdém, e as pessoas atrás de mim começavam a ficar impacientes e a reclamar. Percebi que estava enrubescendo. Mas, graças a um fiapo de organização antes de sair da outra loja, acabei achando o meu pequeno pedaço de plástico.
Voltei pra casa. Eu estava tão cansada. Cansada de mim mesma. E triste. Por que as coisas precisam ser desse jeito, sempre uma roubada atrás da outra? Por que eu preciso passar por esses apertos? E esse medo de fazer mais uma merda a qualquer momento? Por que tudo que é tão simples, parece tão confuso?
Mas, quer saber? Tudo bem, ontem eu comecei a tomar a minha Ritalina. E, como já dizia o coach, a vida é feita de pequenas vitórias; mesmo quando essa vitória é conseguir encontrar o seu próprio cartão de crédito na carteira.
*tempos de Covid
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