quarta-feira, 15 de abril de 2026

TDAH

Vergonha, vexame e outras gafes




Levantei às 7h20. Fiquei zanzando pra lá e pra cá porque de manhã não tenho as coisas claras na minha cabeça. Todos os dias preciso de uma lista com o que tenho que fazer. Mas esqueço de fazer listas.


Lembrei que precisava comprar uma bolsa e óculos pra natação, que começaria em alguns dias. Lembrei também que um pouco de meditação antes de sair de casa é bom pra ter foco e economizar tempo. Mas esqueço de meditar. 


Depois de olhar 26 vezes o celular, folhear quatro dos seis livros que estou lendo e arrumar fora de hora coisas jogadas pela casa, finalmente, consegui sair.


A primeira missão era levar o computador da minha mãe até o técnico pra colocar uma memória interna. Chegando lá, descobri que tinha comprado a memória errada. Viagem perdida. Tempo perdido. Pelo menos, pude conversar com o moço que me atendeu (de máscara*, gato). E ainda conheci a mascote da loja, uma pastora alemã linda e fofa que me cumprimentou com algumas lambidas.


Na hora de ir embora, peguei as minhas coisas de cima do balcão - e as dele também. “Ei, moça!”... me chamou o rapaz: atrapalhada e sem noção, estava saindo com as memórias que ele havia me mostrado há pouco. Pelo menos, ganhei um sorriso - quase uma risada.


Já na loja para comprar a bolsa e os óculos, estacionei meu carro bem longe da entrada; tinha achado uma vaga com sombra lá no finalzinho do estacionamento. O sol estava forte, valia a pena a lonjura.


Peguei minha mochila e fui às compras. Chegando lá, depois de uma caminhada, me deparei com objetos como cordas coloridas, bolas, bichos de pelúcia e muitos brinquedos – só que… para cães. “Que ousado”, pensei, “estão expandindo o negócio”.


Foi então que um segurança me deu bom dia e, bem atrás dele, vi um logotipo enorme escrito “Cobasi”. Só aí me lembrei de que eram duas lojas em um mesmo endereço. Devolvi o “bom dia” e saí sem graça.


Sim, agora estava entrando no lugar certo. Mais um segurança amigável me deu “bom dia”, mas fez um gesto que não combinou muito com a mensagem. Putz, entendi, esqueci de vestir a máscara*. Ha, ha, senhor segurança, ela está na minha mochila!


Só que não.


Revirei a mochila inteira. Virei de ponta-cabeça e joguei tudo no chão. Nada. Nesse instante, lembrei que a máscara poderia estar no carro. Então, tive que recolher toda aquela bagunça e voltar até lá, na puta que o pariu, no bendito final do estacionamento. E lá estava ela, pálida e esgarçada, escondida no porta-luvas. Aliviada, mas resmungando, voltei à missão.


E, o que era para ser uma compra simples foi um verdadeiro rolê. Olhei centenas de coisas, me distraí com as tantas formas e cores, peguei produtos fora dos meus planos, fui ao vestiário várias vezes provar roupas que não tinham nada a ver... experimentei um par de patins. Um par não, três: depois dos tímidos números 39 e 40, tive que colocar, contrariadíssima, o 41, que me serviu, para meu desgosto, como uma luva.


Bom, depois de quase duas horas rodando, resolvi pegar o carrinho e pagar a conta. Olhando admirada para as minhas compras, uma pitada de sanidade e um auto-sermão sobre o que eu estava prestes a fazer com o meu dinheiro invadiram minha cabeça, e acabei, desconcertada, devolvendo os vários produtos aleatórios. Principalmente os patins. Pedi desculpas à moça do caixa. Dessa vez, nada de arrependimento e culpa.


Depois, lembrei que tinha que ir ao supermercado. Peguei frutas, iogurte, legumes e uma fila bem grande no caixa. Tudo no improviso porque, claro, eu perdi a lista de compras.


Mas, em segundos, eu já tinha voltado nos patins 41, e em como eu queria que eles fossem 38, me servindo perfeitamente. Me lembrei do bullying que eu sofria do meu primo quando era criança, dizendo que eu não precisava de prancha para surfar. 


Me lembrei de frases que ouvia quando criança… os clássicos “Você só não esquece a cabeça porque está grudada” e “Você vive no mundo da lua”. Os óbvios “Você larga tudo jogado” e “Você deixa tudo pra depois”. Os tristes: “Você me deixa doente” e “Tinha que ser você”. Os edificantes: “Você estraga tudo” e “Vou te colocar num colégio interno”. Por fim, a monetária “Você não sabe quanto custa”.


Desviando dos pensamentos, tentei voltar à terra, quando comecei a olhar as pessoas à minha frente, suas compras, suas roupas, suas feições com cara de poucos amigos. Observei que havia algumas com o pescoço comprido; outras quase não tinham pescoço. Parecia que as que tinham o pescoço maior eram mais bonitas, e as que praticamente não tinham nada, nem tanto. Então, comecei a me questionar sobre o meu próprio… o que estaria eu prestes a descobrir aos 55 anos? 


“Próximo!” - berra o caixa.


Que susto! A fila finalmente havia andado e eu pude passar com minhas compras. Ao final, a moça do caixa, altiva, me disse:

    - Pode inserir o cartão e senha, senhora?

    - Sim, claro... - respondi, intimidada. Meu coração gelou. Frio na espinha. Revirando a carteira, o nervosismo tomou conta. “De novo, não! Só falta eu ter perdido o cartão mais uma vez!”


A moça já estava me olhando com desdém, e as pessoas atrás de mim começavam a ficar impacientes e a reclamar. Percebi que estava enrubescendo. Mas, graças a um fiapo de organização antes de sair da outra loja, acabei achando o meu pequeno pedaço de plástico. 


Voltei pra casa. Eu estava tão cansada. Cansada de mim mesma. E triste. Por que as coisas precisam ser desse jeito, sempre uma roubada atrás da outra? Por que eu preciso passar por esses apertos? E esse medo de fazer mais uma merda a qualquer momento? Por que tudo que é tão simples, parece tão confuso?


Mas, quer saber? Tudo bem, ontem eu comecei a tomar a minha Ritalina. E, como já dizia o coach, a vida é feita de pequenas vitórias; mesmo quando essa vitória é conseguir encontrar o seu próprio cartão de crédito na carteira.



*tempos de Covid


  

sábado, 26 de outubro de 2024

 31 de março de 2003 

17h04

Oi! Pois é, oi, você de novo. Você de novo tentando se convencer das coisas que precisa fazer! Parece que tá difícil, hein? Persuasão zero. Mas o que é mesmo que você precisa fazer? Duas coisas básicas: ganhar a vida e ser feliz, por mais piegas que isso possa parecer.


20h07

Oi de novo! São 20h07! Claro, como não podia deixar de ser, não consegui escrever o que deveria e dormi. Acordei lerê e com uma deliciosa dor de cabeça. É, Vi, é foda, bem que a astróloga disse que você tá parecendo uma velha de 60 anos.

Você parece mais um vampiro, isso sim. É assim que você está, um vampiro. Está viva, mas não de verdade, não o suficiente. Leva a vida se arrastando, forçando, empurrando. As coisas não fluem... Você faz força pra acordar, faz força pra ficar acordada, faz força pra não dormir. Seu corpo pede imobilidade. 

Sua cabeça dói. Você não quer fazer nada. Você não quer procurar trabalho, não quer cuidar da casa. Não cuida das Tuchas direito. Seu desânimo é completo.Tudo pra você é um saco. Tá foda. Mas chega de lamúrias, vamos aos sonhos desta noite.

(Achei esses sonhos escritos à mão em 2003 e decidi colocá-los aqui (eles têm 21 anos, caramba!). Não queria jogar esse material fora. São sonhos idiotas e muitas vezes enfadonhos, mas, enfim, o apego é maior e deixo aqui registrado.)


30/março/2003 

I - Sonhei que alguns dentes meus tinham caído, uns quatro ou cinco. Nenhum da frente, só os de trás. Eles saíam na minha mão. Podia ver no espelho umas verduras compridas que saíam dos buracos dos dentes: talos enormes de agrião que estavam pendurados. Então eu fui tirando um a um.

II - Participei de uma reunião na última agência que trabalhei pra falar sobre dinheiro. Uma das sócias estava sendo acusada de usar o dinheiro do caixa para gastos duvidosos. O detalhe é que esta sócia era a Andrea Beltrão, a atriz. Ela argumentou dizendo "não vou deixar de ajudar a minha cidade" (que era São Caetano do Sul) pois a agência (o Banco de Eventos) era muito rico e tinha mais é que liberar o dinheiro. Ela tinha feito retiradas de cinco mil reais para doar à cidade. A certa altura da reunião mandei essa: "Se vocês têm todo esse dinheiro para dar a São Caetano do Sul, por que é que não podem aumentar o nosso salário?". Outro detalhe: uma das sócias da agência era a Juliana Negretti, ex-amiga do teatro, mas ela não estava participando da tal reunião. Então pensei "Claro que ela não veio, ficou dormindo, como sempre". E mais: foi apresentada uma prova de um livro escrito pela minha mãe - a agência tinha patrocinado a edição e o lançamento. A mim, me foi dada a tarefa de revisar o texto. E pensei "Olha só, a minha mãe que nunca escreveu nada, teve uma ideia e saiu fazendo um livro. E você? Nada..."

2/abril/2003

Estava num ponto de ônibus com um menino que eu não conhecia na vida real, só no sonho. Sim, só conhecia ele dentro do sonho... difícil explicar isso. Na verdade, o ponto de ônibus ficava numa rua X e também numa praia. De repente, uma onda gigantesca surgiu em cima de nós. Imensa, larga e alta. Ela tinha ido até nós para trazer uma prancha de "surf" que era do menino que estava comigo. (Esse sonho é ralmente insignificante)

X/abril/2003

Estava na porta de casa quando todas as minhas bijus caíram na calçada. Eram muitas, na verdade, muito mais do que eu realmente tinha. Fiquei muito puta da vida. Pensei "Calma, você vai conseguir recolher tudo." Foi quando umas crianças apareceram e começaram a pegar as bijus. Tivemos uma discussão. Uma pessoa mais velha saiu de uma casa para interferir. Detalhe tosco: no meio das buscas, apareceu a Cláudia Raia, a atriz, que, pegando uma peça, perguntou "Nossa, isso aqui você trouxe das Ilhas Malvinas, não foi? Eu respondi "Não, essa eu trouxe de São Thomé das Letras". (Gente, que porra de sonho inútil!)

A casa que fica nos fundos da minha tinha crescido muito, ficando muito mais alta. Era toda de vidro. Lá dentro, havia três homens que falavam muito alto, mas eles, na verdade, estavam me observando pela janela do meu quarto. Então coloquei uns tecidos na janela pra me proteger. Conforme eu me deslocava para outros cômodos da casa, eles continuavam tendo acesso à minha imagem como se todos lugares tivessem grandes janelas no ângulo de visão deles. Mas não tinham.

Entrei num quarto e vi a seguinte cena: minha mãe e meu padrasto (já morto) deitados em uma cama, vivos, de um lado; do outro lado eles estavam duplicados e mortos, sem roupa. Vi então o homem que tinha feito tudo aquilo: um senhor de uns 60 anos, cujo rosto, inédito, vi com absoluta nitidez e poderia reconhecê-lo na rua se o visse de novo.

Estava na escola onde estudei dos sete aos dezesseis anos. Tinha encontrado um menino do primeiro ano que era muito chato (acho que o Alexander) que ficou me alugando. Já estava de saco cheio quando dois caras começaram a me seguir; e seguiam cada vez mais rápido. Entrei num ônibus pra tentar despistá-los. Acabei indo parar numa doceria onde encontrei duas pessoas que trabalharam comigo e comi três pães doces.

Tinha voltado de uma cidade do interior de São Paulo com o Kerlley no fusca amarelo. Quando cheguei em casa, vi que tinha esquecido lá as chaves do meu carro, o Ford Ka, que a gente iria usar para buscar umas pessoas que tinham ficado na tal cidade. Fiquei puta e culpei o Kerlley pela gafe. Aflita, não sabia como resolver a situação. Então lembrei da chave reserva e perguntei pra ele "A chave reserva, você não tem a chave reserva?" "Tenho" - ele respondeu. Percebi nesse momento que ele estava me sacaneando. Brigamos. Ele disse "É, Vi, a gente não dá certo mesmo, não tem jeito" e foi embora. Em seguida, desesperada, comecei a procurar o cara em vários lugares, queria ficar de bem. Lembro que entrei num lugar cheio de gente, muito apertado que parecia uma balada. Tentava passar pelas pessoas, mas não conseguia. Era um bolo humano que impedia a passagem. Mas consegui chegar numa sala onde rolava uma suruba. Tinha um monte de mulher tentando fazer sexo oral umas nas outras... mas estavam de roupa! Era ridículo, Jesus! Tentei sair, mas várias pessoas me puxavam pelas pernas. Finalmente saí de lá e encontrei um monte de gente bêbada. Pressenti que essas pessoas conheciam o Kerlley e comecei a perguntar por ele. Diziam que tinha ido embora, voltado pra cidade dele. Fiquei transtornada e não acreditei; continuei procurando. Foi então que encontrei uma menina que disse que ele tinha ido pra Itanhaém no dia quinze de janeiro com uma amiga dela. Eles transaram. Mesmo assim, continuei com a busca, agora com a ajuda dessa menina. Chegamos a um café e ela disse "Pode acreditar que ele está aqui com um amigo". Vimos então em uma mesa um cara todo detonado, bêbado e quase dormindo. Era o Kerlley. Tentei acordá-lo: "Sô, levanta, vamos pra casa pra você dormir." Ele não quis vir comigo e disse vários desaforos e que não gostava mais de mim. Fiquei muito mal e procurei um abrigo municipal, um albergue. As pessoas de lá tinham problemas mentais, inclusive crianças. Olhei pro lado e vi um menininho andando de Velotrol.