31 de março de 2003
17h04
Oi! Pois é, oi, você de novo. Você de novo tentando se convencer das coisas que precisa fazer! Parece que tá difícil, hein? Persuasão zero. Mas o que é mesmo que você precisa fazer? Duas coisas básicas: ganhar a vida e ser feliz, por mais piegas que isso possa parecer.
20h07
Oi de novo! São 20h07! Claro, como não podia deixar de ser, não consegui escrever o que deveria e dormi. Acordei lerê e com uma deliciosa dor de cabeça. É, Vi, é foda, bem que a astróloga disse que você tá parecendo uma velha de 60 anos.
Você parece mais um vampiro, isso sim. É assim que você está, um vampiro. Está viva, mas não de verdade, não o suficiente. Leva a vida se arrastando, forçando, empurrando. As coisas não fluem... Você faz força pra acordar, faz força pra ficar acordada, faz força pra não dormir. Seu corpo pede imobilidade.
Sua cabeça dói. Você não quer fazer nada. Você não quer procurar trabalho, não quer cuidar da casa. Não cuida das Tuchas direito. Seu desânimo é completo.Tudo pra você é um saco. Tá foda. Mas chega de lamúrias, vamos aos sonhos desta noite.
(Achei esses sonhos escritos à mão em 2003 e decidi colocá-los aqui (eles têm 21 anos, caramba!). Não queria jogar esse material fora. São sonhos idiotas e muitas vezes enfadonhos, mas, enfim, o apego é maior e deixo aqui registrado.)
30/março/2003
I - Sonhei que alguns dentes meus tinham caído, uns quatro ou cinco. Nenhum da frente, só os de trás. Eles saíam na minha mão. Podia ver no espelho umas verduras compridas que saíam dos buracos dos dentes: talos enormes de agrião que estavam pendurados. Então eu fui tirando um a um.
II - Participei de uma reunião na última agência que trabalhei pra falar sobre dinheiro. Uma das sócias estava sendo acusada de usar o dinheiro do caixa para gastos duvidosos. O detalhe é que esta sócia era a Andrea Beltrão, a atriz. Ela argumentou dizendo "não vou deixar de ajudar a minha cidade" (que era São Caetano do Sul) pois a agência (o Banco de Eventos) era muito rico e tinha mais é que liberar o dinheiro. Ela tinha feito retiradas de cinco mil reais para doar à cidade. A certa altura da reunião mandei essa: "Se vocês têm todo esse dinheiro para dar a São Caetano do Sul, por que é que não podem aumentar o nosso salário?". Outro detalhe: uma das sócias da agência era a Juliana Negretti, ex-amiga do teatro, mas ela não estava participando da tal reunião. Então pensei "Claro que ela não veio, ficou dormindo, como sempre". E mais: foi apresentada uma prova de um livro escrito pela minha mãe - a agência tinha patrocinado a edição e o lançamento. A mim, me foi dada a tarefa de revisar o texto. E pensei "Olha só, a minha mãe que nunca escreveu nada, teve uma ideia e saiu fazendo um livro. E você? Nada..."
2/abril/2003
Estava num ponto de ônibus com um menino que eu não conhecia na vida real, só no sonho. Sim, só conhecia ele dentro do sonho... difícil explicar isso. Na verdade, o ponto de ônibus ficava numa rua X e também numa praia. De repente, uma onda gigantesca surgiu em cima de nós. Imensa, larga e alta. Ela tinha ido até nós para trazer uma prancha de "surf" que era do menino que estava comigo. (Esse sonho é ralmente insignificante)
X/abril/2003
Estava na porta de casa quando todas as minhas bijus caíram na calçada. Eram muitas, na verdade, muito mais do que eu realmente tinha. Fiquei muito puta da vida. Pensei "Calma, você vai conseguir recolher tudo." Foi quando umas crianças apareceram e começaram a pegar as bijus. Tivemos uma discussão. Uma pessoa mais velha saiu de uma casa para interferir. Detalhe tosco: no meio das buscas, apareceu a Cláudia Raia, a atriz, que, pegando uma peça, perguntou "Nossa, isso aqui você trouxe das Ilhas Malvinas, não foi? Eu respondi "Não, essa eu trouxe de São Thomé das Letras". (Gente, que porra de sonho inútil!)
A casa que fica nos fundos da minha tinha crescido muito, ficando muito mais alta. Era toda de vidro. Lá dentro, havia três homens que falavam muito alto, mas eles, na verdade, estavam me observando pela janela do meu quarto. Então coloquei uns tecidos na janela pra me proteger. Conforme eu me deslocava para outros cômodos da casa, eles continuavam tendo acesso à minha imagem como se todos lugares tivessem grandes janelas no ângulo de visão deles. Mas não tinham.
Entrei num quarto e vi a seguinte cena: minha mãe e meu padrasto (já morto) deitados em uma cama, vivos, de um lado; do outro lado eles estavam duplicados e mortos, sem roupa. Vi então o homem que tinha feito tudo aquilo: um senhor de uns 60 anos, cujo rosto, inédito, vi com absoluta nitidez e poderia reconhecê-lo na rua se o visse de novo.
Estava na escola onde estudei dos sete aos dezesseis anos. Tinha encontrado um menino do primeiro ano que era muito chato (acho que o Alexander) que ficou me alugando. Já estava de saco cheio quando dois caras começaram a me seguir; e seguiam cada vez mais rápido. Entrei num ônibus pra tentar despistá-los. Acabei indo parar numa doceria onde encontrei duas pessoas que trabalharam comigo e comi três pães doces.
Tinha voltado de uma cidade do interior de São Paulo com o Kerlley no fusca amarelo. Quando cheguei em casa, vi que tinha esquecido lá as chaves do meu carro, o Ford Ka, que a gente iria usar para buscar umas pessoas que tinham ficado na tal cidade. Fiquei puta e culpei o Kerlley pela gafe. Aflita, não sabia como resolver a situação. Então lembrei da chave reserva e perguntei pra ele "A chave reserva, você não tem a chave reserva?" "Tenho" - ele respondeu. Percebi nesse momento que ele estava me sacaneando. Brigamos. Ele disse "É, Vi, a gente não dá certo mesmo, não tem jeito" e foi embora. Em seguida, desesperada, comecei a procurar o cara em vários lugares, queria ficar de bem. Lembro que entrei num lugar cheio de gente, muito apertado que parecia uma balada. Tentava passar pelas pessoas, mas não conseguia. Era um bolo humano que impedia a passagem. Mas consegui chegar numa sala onde rolava uma suruba. Tinha um monte de mulher tentando fazer sexo oral umas nas outras... mas estavam de roupa! Era ridículo, Jesus! Tentei sair, mas várias pessoas me puxavam pelas pernas. Finalmente saí de lá e encontrei um monte de gente bêbada. Pressenti que essas pessoas conheciam o Kerlley e comecei a perguntar por ele. Diziam que tinha ido embora, voltado pra cidade dele. Fiquei transtornada e não acreditei; continuei procurando. Foi então que encontrei uma menina que disse que ele tinha ido pra Itanhaém no dia quinze de janeiro com uma amiga dela. Eles transaram. Mesmo assim, continuei com a busca, agora com a ajuda dessa menina. Chegamos a um café e ela disse "Pode acreditar que ele está aqui com um amigo". Vimos então em uma mesa um cara todo detonado, bêbado e quase dormindo. Era o Kerlley. Tentei acordá-lo: "Sô, levanta, vamos pra casa pra você dormir." Ele não quis vir comigo e disse vários desaforos e que não gostava mais de mim. Fiquei muito mal e procurei um abrigo municipal, um albergue. As pessoas de lá tinham problemas mentais, inclusive crianças. Olhei pro lado e vi um menininho andando de Velotrol.
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